22 de ago. de 2009

Solidão - Entrave ou escape

Na história do ser humano a solidão nunca foi tão intensa como da sociedade atual. Imaginávamos que, pelo fato de aprendermos línguas na escola e vivermos espremidos nos elevadores, no local de trabalho e nos clubes, a solidão seria resolvida. Mas as pessoas não aprenderam a falar de si mesmas, tem medo de se expor, vivem represadas em seu próprio mundo. Pais e filhos vivem ilhados, raramente choram juntos e comentam sobre seus sonhos, mágoas, alegrias, frustrações. O diálogo está morrendo.
O diálogo em todos os níveis das relações humanas está morrendo. A relação médico-paciente, professor-aluno, executivo-funcionário, jornalista-leitor, pai-filho carecem freqüentemente de profundidade. Falar de si mesmo? Aprender a se interiorizar e buscar ajuda mútua? Remover nossas maquiagens sociais? Isto parece difícil de ser alcançado.
Parece que é melhor ficar ligado na TV, plugado nos computadores e viajar pela Internet! Os pais geralmente não percebem que as crianças precisam ter infância. Não imaginam que as funções mais importantes da inteligência dependem das aventuras da criança.
A geração dos jovens da atualidade é a que mais tem cultura lógica e menos cultura emocional e existencial. Estão desenvolvendo doenças emocionais, não apenas por conflitos do passado, mas principalmente porque estão despreparados para fracassar, sofrer perdas, chorar, competir, construir oportunidades. Não sabem lidar com a solidão nem contemplar o belo. Suas emoções são fugazes e sem raízes. Precisamos ajudá-los a sonhar.
Os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas quase nada sobre o mundo que são. No máximo conhecem a sala de visitas da sua própria personalidade. Quer pior solidão do que esta? O ser humano é um estranho para si mesmo! Os jovens raramente sabem pedir perdão, reconhecer seus limites, se colocar no lugar dos outros. Qual é o resultado? Na sociedade moderna o ser humano vive ilhado dentro de si mesmo, envolvido num mar de solidão. A solidão é drástica, insidiosa e silenciosa. Falamos eloqüentemente do mundo em que estamos, mas não sabemos falar do mundo que somos, de nós mesmos, dos nossos sonhos, dos nossos projetos mais íntimos.
Não sabemos discorrer sobre nossas fragilidades, nossas inseguranças, nossas experiências mais íntimas. O homem moderno é prolixo para comentar o mundo em que está, mas emudece diante do mundo que é. Por isso, vive o paradoxo da solidão. Trabalha e convive em multidões, mas, ao mesmo tempo, está isolado dentro de si mesmo. Sendo as emoções "geradas" em zonas antigas do cérebro elas são difíceis de "domar".
O autocontrole emocional é uma tarefa que deve ser objeto de aprendizagem desde os primeiros anos de vida para que nos libertemos da escravidão em que elas nos poderão colocar. Muitos só conseguem falar de si mesmos diante de um psiquiatra ou de um psicoterapeuta, os quais têm tratado não apenas de doenças psíquicas, como depressões e síndromes, mas também de uma importante doença psicossocial: a solidão. Porém, não há técnica psicoterapêutica que resolva a solidão. Não há antidepressivos e tranqüilizantes que aliviem a sua dor.
Um psiquiatra e um psicoterapeuta podem ouvir intimamente um cliente, mas a vida não transcorre dentro dos consultórios terapêuticos. O palco da existência transcorre lá fora. No terreno árido das relações sociais é que a solidão deve ser tratada. Lá fora é que o homem deve construir canais seguros para falar de si mesmo, sem preconceitos, sem medo, sem necessidade de ostentar o que se tem. Falar demonstrando apenas aquilo que se é...
O que mais somos? Somos uma conta bancária, um título acadêmico, um status social? Não. Somos o que sempre fomos, seres humanos. As raízes da solidão começam a ser tratadas quando aprendemos a ser apenas seres humanos. Parece ser contraditório, mas temos grandes dificuldades de retornar às nossas origens. As pessoas deixam que as suas emoções as controlem facilmente. Buscam tanto a felicidade que não a encontram e sofrem com isso. Andam desiludidas, estressadas, perturbadas e solitárias. E a culpa não é só do mundo que está difícil e exigente.
Acredito que estar só (desacompanhado) não é o problema, a questão é quando nós muitas das vezes ao embarcamos numa experiência emocional intensa, o nosso corpo, através do cérebro, sofre várias alterações para que ele se adapte à situação e muitas vezes as emoções se manifestam através das sensações como agressividade, fuga e a solidão. E esse tipo de sensação de solidão que também pode ser chamado de "solidão emocional" é um perigo quando nós passamos a nos aprisionar dentro de nós mesmos.
Quando estamos ilhados dentro de nós mesmos ficamos como um pássaro isolado e engaiolado, nós primeiros sentimos e depois que somos capazes de pensar ou seja a nossa mente intelectual bloqueia e nos tornamos escravos das nossas emoções. Mas é isso mesmo, o homem é o ser vivo mais emotivo da Terra. Para o bem e para o mal, as emoções fazem parte da nossa vida.
E eu não conheço ninguém que tenha conseguido um estado de equilíbrio emocional perfeito, até porque o nosso estado emocional é flutuante, nossas emoções vivem oscilando, vivemos em estado contínuo de transformação o problema é quando nós nos deixamos ser encarcerados por elas.
A solidão não é um problema peculiar, acredito que estamos todos adoecendo "coletivamente", prova disso é o avanço das doenças psicossomáticas, e sobre essas doenças, penso que meus professores possam esclarecer melhor.
As pessoas sofrem imenso com idéias negativas, preocupações existenciais, obsessões com a imagem e a estética, e muitos outros desequilíbrios. Frequentemente fazemos de nossas emoções uma "lata de lixo". Deixamo-nos invadir pelas ofensas, rejeições e frustrações causadas pelos outros. “Sofremos pelo que os outros nos causam, mas sofremos ainda mais pelo que causamos a nós mesmos”.
Sou completamente descrente em magia... Não existe mágica que fará com que todo mundo se abrace, ame e viva feliz para sempre! Graças ao capitalismo contaminante, nossa existência não será escrita por palavras bonitinhas, não!

3 de jul. de 2009

Alegria Alegria

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento,
No sol de quase dezembro
Eu vou...
O sol se reparte em crinas
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou ...
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou ...
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou ... por que não, por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento, eu vou
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou ...
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil
Ela não sabe, até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou ...
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou ... por que não, por que não?